Meus queridos e velhos sim

por Gigi em 26 de agosto de 2016
Diego José Bonatti

Psicólogo (CRP: 06/99594)

Optar pelo uso da palavra “velho” para se referir a uma pessoa não parece ser mais educado e socialmente correto; quantos de nós já não ouvimos as seguintes frases: “Eu não sou velho, velho é trapo!”, “Velho é a sua avó ou avô!”, “Eu estou na melhor idade”, estes bordões me fizeram questionar o quanto a palavra “velho” tornou-se pejorativa.

Quando a palavre “velho” se tornou pejorativa?


O intuito deste texto não é discutir qual adjetivo deve-se utilizar para referir-se ao velho, mas sim provocar propositalmente  o debate do porquê de não usar “velho” ao referir-se às pessoas. Afinal, o que deveria importar é a vibração transmitida ao usar tal vocabulário. Enfim: Quem não tem um velho e querido na família e ou entre os amigos?

“Idoso”, “Melhor Idade”, “Terceira Idade” são termos que podem substituir a referência de “velho”, entretanto, poderíamos dizer que talvez sejam utilizados para maquiar a grande e irrevogável certeza de nossas vidas: somos seres finitos, os únicos animais que sabem e que podem raciocinar sobre a própria falência.

O fato é que criamos situações e nos cercamos de outras palavras para dizermos as mesmas coisas; maneiras diferentes de se expressar com o intuito de nos iludirmos, nos cegarmos, esquivando das verdades da vida. Entretanto, nas entrelinhas de nossas manifestações, podemos observar a fundo o que tememos e queremos manter encoberto – o nosso medo da morte; explicando, parcialmente, o nosso incômodo com o termo “velho”.

YALOM (2008) em sua obra: “De frente para sol, como superar o terror da Morte”, trata sobre a “ferida da mortalidade”, onde aponta que iremos nascer, nos desenvolver e, inevitavelmente morrer. Enquanto, Fernando Pessoa – poeta brasileiro – poetizou “somos cadáveres adiados” e, com isso, me parece que ele encontrou a sua maneira de lidar com o inevitável.

Estágios do envelhecimento


KUBLER – ROSS (2008) ressalta que diante da morte eminente podemos passar por alguns estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. O primeiro estágio, a NEGAÇÃO, nos sugere que diante da possibilidade do envelhecer e morrer; com o intuito de nos defender psicologicamente, podemos simplesmente repelir o factível. Esquivando dos pensamentos sobre o ENVELHECER e MORRER, e buscando as mais diversas maneiras de lidarmos com o ficar velho; buscamos riqueza e fama, escrevemos livros, pulamos de bungee jump, realizamos incontáveis cirurgias plásticas e, por fim, criamos nossos filhos imbuídos de sentimentos de imortalidade – conforme propôs meu velho e querido Sigmund Freud.

ENVELHECER está fatalmente associado com adoecer, com a perda das características físicas idealizadas e, talvez, uma das mais temidas das possíveis ocorrências a despersonalização, a qual defino como “a perda da capacidade da alma se manifestar pelo corpo”.

ZIMERMAN (2000) propõe que o que deve ser mudado não é a forma de se referir ao velho, mas sim a forma como tratamos os nossos velhos; sendo assim, sugere que o velho deve ser visto como alguém inserido na vida e não a caminho da morte. O velho merece todo carinho, compreensão e respeito amplo às suas peculiaridades.

Desta maneira, proponho com este texto uma reflexão: COMO TRATAMOS NOSSOS VELHOS E O NOSSO PRÓPRIO ENVELHECIMENTO?

Participe também, deixe sua opinião, sugestão e críticas.

Até a próxima.


Referências:

KÜBLER-ROSS, E. Sobre a Morte e o Morrer. 9ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2008. 296p.

YALOM, I. D. De frente para o Sol: Como Superar o Terror da Morte. Rio de Janeiro: Agir, 2008. 230p.

ZIMERMAN, G. I. Velhice: Aspectos Biopsicossociais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. 229p.

Imagem por: Freepik

Diego José Bonatti

Psicólogo (CRP: 06/99594)

Psicólogo Clínico, Formado pela Universidade Paulista (UNIP) - Ribeirão Preto em 2009. Especialista em Teorias e Técnicas Psicanalíticas pelo Instituto de Estudos Psicanalíticos - Ribeirão Preto/SP. Atua também com Equoterapia (método terapêutico educacional que utiliza cavalos), desde 2013 e também como Coordenador do Lar Acolhedor São Vicente de Paulo de Jaboticabal.



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