Um breve olhar sobre o relacionamento entre o velho e cuidador

por Gigi em 28 de setembro de 2016
Diego José Bonatti

Psicólogo (CRP: 06/99594)

Segundo o Estatuto do Idoso, sob a Lei número 10.741 de 1º de outubro de 2003, idoso (a) é o cidadão que completou 60 anos. O artigo 37 do mesmo Estatuto indica que o idoso tem direito à moradia digna, estando ou não com sua família e podendo manifestar o livre desejo de estar ou não assistido por uma instituição pública ou privada. É previsto ainda, que a assistência integral na modalidade de longa permanência ocorrerá quando inexistirem os familiares ou uma casa-lar, assim como em situações de abandono do idoso, carência de recursos financeiros próprios ou de sua família.  No exercício da minha atividade profissional como Psicólogo em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (I.L.P.I.) observei inúmeras situações. Entre estas, destaco a relação interpessoal entre os idosos e os empregados registrados com a função de cuidadores. Desta maneira, do vértice de onde olho para esta relação, observo que as situações entre os velhos (as) e cuidadores são permeadas por conflitos dinâmicos e próprios. O conceito de cuidador é utilizado para designar o empregado que cuida diretamente das necessidades básicas do velho; como a higiene pessoal, alimentação e oferta de água – sendo estas algumas das possíveis funções. Entretanto, cuidador é todo aquele que realiza tanto os cuidados físicos, como aqueles que se dedicam a cuidar das emoções dos idosos. A decomposição da palavra “cuidador”, numa interpretação livre, seria “cuidar da dor”, seja ela física ou emocional. De acordo com Zimerman (2000) “… os cuidadores são as pessoas que estão no dia-a-dia ao lado do velho, devidamente treinadas e supervisionadas”. Além dos cuidados básicos, cuidadores podem ficar inseridos como parte importante das relações sociais e rede de apoio dos idosos. Apesar do aumento crescente da população idosa, pessoas que se candidatam para vagas de emprego como cuidadores muitas vezes não demonstram conhecimento técnico e científico sobre o envelhecer. Ainda quando possuem formação técnica ou superior em cuidados de enfermagem, a experiência no cuidado com idosos tende a restringir-se aos cuidados de familiares, destacando a necessidade de formação adequada, incluindo cursos de capacitação referente ao manejo com idosos (ZIMERMAN, 2000). Portanto, torna-se imprescindível que os cuidadores sejam orientados e informados quanto aos aspectos biopsicossociais do envelhecimento. Dessa maneira, estudar e compreender os fenômenos da relação entre cuidador e o idoso é de extrema importância para que possamos buscar maior preparo técnico e emocional daqueles que optam por trabalhar nesta área. Esse aspecto é bastante relevante, uma vez que esta atividade tem sido cada vez mais frequente e necessária, embora nem sempre acompanhada da formação adequada.  Neste contexto, é imprescindível investir nas equipes multiprofissionais que trabalham nas I.L.P.I.; bem como, no relacionamento interprofissional dessas equipes. Indo mais além, seria muito bem-vindo o investimento no relacionamento interinstitucional, como forma de agregar qualidade no atendimento e cuidados com os idosos. (ZIMERMAN, 2000) Reis e Ceolim (2000) realizaram um estudo com 50 sujeitos que trabalham em I.L.P.I., observando que 94% dos participantes da pesquisa são do sexo feminino. Este dado sugere que, em nossa cultura, o cuidado está estreitamente associado à mulher. Além disso, é necessário considerar também que as portas do mercado de trabalho se abriram para o sexo feminino pela necessidade de aumento de renda nas famílias.  Embora descrevam a relação afetuosa com os idosos, é preciso considerar que muitos funcionários que trabalham em I.L.P.I, tendem a infantilizar ou a vitimizar pessoas idosas, na medida em que os veem como “crianças”, “coitadinhos”, pessoas “dóceis e submissas”; com risco de despersonalização do idoso (REIS; CEOLIM, 2001).  Sob uma perspectiva psicodinâmica, deve-se considerar os aspectos individuais da velhice, ou seja, não há “homogeneidade”; e sim, uma diversidade, como em todas as outras etapas da vida: “… o velho é cada vez mais aquilo que ele foi ao longo da sua vida” (EIZIRICK, 2013). Contudo, cada civilização e cada período histórico tem também uma visão geral sobre a velhice, a qual é influenciada por aspectos culturais, emocionais e socioeconômicos (EIZIRICK, 2013).  Ao longo da minha carreira sempre observei pessoas excelentes e extremamente humanas no trato com os idosos, a relação do cuidador com o idoso, me faz lembrar de um filme: “Os Intocáveis” (2011) que o deixo como sugestão para nossos leitores.

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Até a próxima.




Referências:

EIZIRICK, C.L. A velhice. In: Eizirick, C.L., Bassols, A.M.S. (org). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. – 2 ed. – Porto Alegre: Artmed, 2013.

REIS, P.O.; CEOLIM, M.F. O Significado Atribuído a ‘ser idoso’ por Trabalhadores de Instituições de Longa Permanência.  Rev. Espec. Enf. Usp; 41(1): 57-64, mar. 2007.

ZIMERMAN, G. Velhice: Aspectos Biopsicossociais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

Foto por: Jo & Joey

Diego José Bonatti

Psicólogo (CRP: 06/99594)

Psicólogo Clínico, Formado pela Universidade Paulista (UNIP) - Ribeirão Preto em 2009. Especialista em Teorias e Técnicas Psicanalíticas pelo Instituto de Estudos Psicanalíticos - Ribeirão Preto/SP. Atua também com Equoterapia (método terapêutico educacional que utiliza cavalos), desde 2013 e também como Coordenador do Lar Acolhedor São Vicente de Paulo de Jaboticabal.



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